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[Resenha] O mau exemplo de Cameron Post - Por Emily M. Danforth

03 julho 2018

Título: O mau exemplo de Cameron Post
Autor (a): Emily M. Danforth
Páginas: 448
Editora: Harper Collins
Skoob || Goodreads
Compre: Amazon

Sinopse: Quando os pais de Cameron Post morrem em um acidente de carro, a primeira coisa que ela sente, para sua própria surpresa, é alívio. Alívio que eles nunca vão precisar saber que, algumas horas antes, ela estava beijando uma menina.
Mas o alívio não dura, e Cam é forçada a morar com sua tia ultraconservadora e sua bem-intencionada mas antiquada avó. Ela sabe que, daqui em diante, tudo será diferente. Sobreviver nessa pequena cidade rural de Montana exige que Cam finja ser igual a todo mundo e evite assuntos indelicados (como diria sua avó), e ela é boa nisso.
Até que Coley Taylor chega à cidade. Coley é perfeita, e tem um namorado perfeito para completar. Ela e Cam forjam uma amizade intensa, que parece deixar espaço para algo mais. Mas assim que isso começa a parecer possível, a religiosa tia Ruth decide que é hora de “consertar” sua sobrinha, a mandando para God’s Promise (Promessa de Deus), um acampamento de conversão que deve “curar” sua homossexualidade. Lá, Cam fica frente a frente com o custo de negar quem ela é – mesmo que ela não tenha certeza que sabe realmente quem é.
Cameron Post tem doze anos no agora distante, ou nem tanto, final dos anos oitenta. Em um belo dia na pequena Miles City, no quente estado americano de Montana, ela está furtando lojas ao lado de Irene, sua então inseparável amiga. Que a desafia a beijá-la. Um desafio aceito pela então jovem e impressionável pré-adolescente que não se furta de competir com a melhor amiga por motivos que nem ela mesma entende. Cammie, como é chamada pela maioria, não tinha ideia de que a partir daquele dia, sua vida sofreria uma inacreditável mudança.

Primeiro, os pais morrem em um acidente de carro e a então jovenzinha sente-se primeiramente aliviada porque os pais não saberiam que ela estava beijando uma menina. Entretanto, incontáveis sentimentos de incerteza e culpa acabam fazendo a então inseparável dupla de meninas separar-se de uma forma que pode ser chamada de definitiva.

Segundo e talvez muito pior, ela se vê sendo criada, e consequentemente, devendo o resto de sua ciração, a uma tia ultraconservadora e religiosa, Ruth, irmã de sua mãe, que não era uma presbiteriana das mais assíduas, assim como o pai. Apesar de bem intencionada, Vovó Post é bastante antiquada e Cameron obriga-se, percebendo que gosta de meninas, a fingir ser algo "normal", falando em termos sociais.

No entanto, a chegada de Coley Taylor à cidade faz o mundo já estranho, complicado e escondido de Cameron Post virar de ponta-cabeça. Ela não tem ideia de que isso vai tornar sua já conturbada existência ainda pior quando um episódio faz com que seu "desvio sexual" seja descoberto e como consequência, seja enviada a um acampamento de conversão chamado Promessa de Deus, um lugar que nem mesmo nos piores pesadelos ela teria desejado estar.

Esse é "o mau exemplo" de Cameron Post. Convido vocês a conhecê-lo e nunca mais serem os mesmos. Ou talvez terem ainda mais certeza de que nenhuma forma de amor é sem valor.






Primeira coisa a dizer sobre esse livro: a Harper Collins sabe mesmo como caprichar na edição física e no trabalho gráfico. As páginas amareladas contribuem para uma boa leitura apesar da fonte um pouco pequena, o que não acabou sendo problema para mim, mas pode ser para outros. A revisão está impecável, sem erros perceptíveis ou gritantes. A capa é bonita de uma forma singela e suave e tem tudo a ver com a temática do livro.

Mas essa, apesar de ser algo a ser dito sobre o livro, não é a parte realmente importante. Apesar de que sei ser perfeitamente capaz de colaborar para chamar atenção dos leitores, ainda mais com esse título, que por si só já uma senhora contradição.

Imagino que a pergunta é: por que?

Pensem em um livro que te emociona, faz rir (ainda que a comédia seja pouca), te indigna, te faz refletir e principalmente, perceber que o mundo atual permanece o mesmo absurdo que era entre o fim dos anos oitenta e começo dos noventa.

"Mesmo que nunca tivessem me dito especificamente para não beijar uma garota, ninguém precisava fazer isso. Beijos eram coisas entre meninos e meninas: na nossa turma, na TV, nos filmes, no mundo - era assim que funcionava: meninos e meninas. Qualquer coisa diferente disso era estranho. E mesmo que eu já tivesse visto garotas da nossa idade cidade de mãos ou braços dados e talvez algumas delas até já tivessem treinado beijos umas com as outras, eu sabia que o que a gente fez no celeiro era diferente. Era era algo mais sério, adulto, como Irene falou. Não foi um beijo de treino. Não mesmo. Pelo menos eu achava que não. Mas não falei nada disso. Ela também sabia." - Pág. 16.

O mau exemplo de Cameron Post (#PraCegoVer: a palavra "mau" está sobrescrita com um traço) é esse livro. O primeiro da temática LGBTQ que eu li na vida mesmo eu tendo amigos gays (tanto homens quanto mulheres) e trans (duas mulheres). Uma obra que me fez comprovar o que há muito tempo eu já sabia, mas tinha vergonha de assumir (até porque estou mudando isso aos poucos): a enorme raiva que ainda tenho, embora não devesse porque sei que isso é muito errado, de gente conservadora e ultraconservadora e a minha total falta de paciência com esse nicho. O que já me custou episódios de xingamentos nada educados contra gente que eu deveria conhecer primeiro.

Well (David Tennant mode on), eu não sou muito de falar da minha vida pessoal, mas quem leu um post meu de alguns meses atrás chamado Sobre chapeuzinhos, vovós, lobos, lenhadores e futebolistas (aqui) com certeza deve se lembrar de que eu falei sobre ter mais respeito e empatia com o próximo. Confesso, agora, que até pouco tempo, pelo menos um ano e alguma coisa, tinha (embora eu ainda tenha) problemas sérios de lidar com o meu temperamento impaciente e explosivo. Minha raiva, que surgiu depois de adulta, SEMPRE foi direcionada às pessoas mencionadas no parágrafo anterior. Os motivos são relacionados ao fato de que me tornei ainda mais contra injustiças, em especial quando elas são completamente absurdas e por motivos estúpidos, o que é quase sempre. Sabem aquele sentimento de querer fazer a outra pessoa sentir a mesma coisa que você sente por estar sendo tolhido nas suas escolhas e vida ou até sofrendo com algo que se considera injusto?

“Então, eu dei um beijo nela na mesma hora, antes que a gente tivesse mais tempo para falar sobre o assunto ou que a mãe dela nos chamasse para jantar. Não há nada que se possa saber sobre um beijo como aquele antes que aconteça. A coisa toda foi ação e reação, o jeito com que os lábios dela eram salgados e estavam com gosto de refrigerante. O jeito como fiquei meio tonta o tempo inteiro. Se a gente tivesse dado somente aquele beijo, então teria sido apenas um desafio, nada diferente do que já tínhamos feito antes. Mas depois, quando a gente se encostou contra os engradados e uma abelha ficou pairando sobre o refrigerante derramado, ela me beijou de novo. E, embora eu não a tivesse desafiado a fazer aquilo, fiquei feliz.”

Esse livro, com sua leitura envolvente e fluida apesar do peso dos temas nele contidos, meio que "disparou" esse gatilho na minha mente (me corrijam se usei errado o termo) e não raras vezes me vi querendo socar a cara de meio mundo de personagens. Muitas vezes até da protagonista porque ela sabe mesmo tirar um do sério. Cameron Post está longe de ser má, mas também longe de ser perfeita. A verdade é que ela é muito humana, real demais quando está tentando descobrir quem é e tentando entender seu propósito nesse mundo que parece não aceitar o que ela pensa e sente. Ainda, a quantidade de absurdos por página algumas vezes supera tudo o que já li até hoje. Isso que li uns livros de fazer arrepiar os pelos do corpo todo (para não usar uma expressão feia). Tem umas horas no livro que se torna impossível não se perguntar com que base alguns pensamentos surgiram na cabeça desses personagens. Então todos estão errados e só eles são os certos? Como assim? O próprio Jesus Cristo não dizia que devíamos amar uns aos outros como a nós mesmos? Até onde eu sei, JC nunca julgou ninguém e inclusive incentivava o amor acima de tudo.

“- A homossexualidade não existe - falou ela. - A homossexualidade é um mito perpetuado pelo chamado movimento dos direitos gays. - Ela espaçou cada palavra da frase seguinte: - Não existe identidade gay; isso não existe. Em vez disso, há apenas a mesma luta contra desejos e comportamentos pecaminosos que nós, como filhos de Deus, precisamos combater.” (Não posso com isso.)

Amor esse que não parece que os membros da igreja frequentada por tia Ruth sentem ou até mesmo saibam o conceito porque esse livro mostra, com uma franqueza desconcertante por parte da escrita da autora, que o fanatismo religioso acaba causando mais mal que bem e prejudica meio mundo. (As atrocidades da Igreja Católica alguns séculos atrás prova isso sem qualquer hesitação.) Sem contar o enorme preconceito disfarçado de "virtude" que permeia toda a terceira parte do livro que chega a revirar o estômago de quem lê porque não tem como aceitar aquilo sendo correto nem mesmo fazendo todo o esforço do mundo. Como sabiamente uma amiga minha que acabou de fazer 51 anos disse: a pessoa é da igreja (com letra minúscula SIM), mas não tem Jesus no coração. Porque, eu acredito, ter Jesus no coração significa somente uma coisa: tratar o teu próximo como um irmão, aceitá-lo da forma como ele é. Não importando a orientação sexual ou de gênero, a forma como se veste, o modo como usa o cabelo e por aí vamos para o tamanho de uma tese de doutorado.

Só para terem uma ideia, olhem o panfleto da Promessa de Deus (que eu me dei ao trabalho de scanear diretamente do livro)...




Eu terminantemente me recuso a comentar disso porque as palavras me faltam para descrever tal coisa. Uma atrocidade, para resumir.

No fim das contas, se você procura um livro capaz de mexer com todas as suas emoções, te prender na leitura, ainda que a leitura pareça um haltere de cem quilos de tão pesada e te fazer refletir, O mau exemplo de Cameron Post é o que você procura e a Lady Trotsky indica.






















Renata Cezimbra
Professora desempregada, leitora voraz,
escritora doida e vampiróloga amadora.
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