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[Resenha] Jardim de Espelhos - Por Veridiana Maenaka

21 agosto 2018

Título: Jardim de Espelhos
Autor (a): Veridiana Maenaka
Páginas: 350
Editora: Giz Editorial
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Sinopse: São Paulo, 1880
Cristina nasceu de um relacionamento proibido entre dois jovens da alta sociedade, por isso é rejeitada e entregue, ainda bebê, a uma mulher humilde. Ignorante de sua origem, cresce como serviçal na fazenda Redenção. Apesar da diferença social, ela e André, filho do dono da propriedade, tornam-se companheiros de folguedos e, na adolescência, namorados. Mas esse amor custa caro a Cristina, e ela cai em desgraça. Quem a salva do desamparo é Olívia, reconhecida alcoviteira, que a transforma numa mulher cobiçada e elegante, uma acompanhante de alto luxo.
Na solidão dessa vida a um só tempo glamourosa e degradante, Cristina reencontra André, o amor de infância. Obcecada por reconquistá-lo e retornar triunfante à fazenda Redenção, a moça precisará da ajuda do detestável – e atraente – Eduardo.
Paixões, intrigas e sensualidade num envolvente romance de época.


Maria Cristina Ribeiro, ou simplesmente Cristina, é serviçal na fazenda Redenção e desde que se conhece por gente, nunca recebeu qualquer afeto dos pais adotivos.

Aliás, o pai adotivo ela mal vê, além de nunca ter se sentido realmente bem vinda no seio daquela família formada por uma cozinheira e um ferreiro que mal e porcamente parecem um casal. Ela não tem ideia, entretanto, que na realidade nasceu de um romance proibido entre dois jovens da alta sociedade. Henrieta e Diogo, que não podiam ser mais diferentes em temperamento e personalidade, ficaram juntos e desse romance, nasceu Cristina, condenada, pela hipocrisia de uma sociedade que submete as mulheres a regras estúpidas e sufocantes, a não receber o amor que qualquer criança deveria merecer só pelo fato de ser fruto de um romance fora do casamento.



Entre trabalhos, brincadeiras e folguedos, ela cria amizade com André Toledo, o filho caçula de Clarisse e Rogério, acabando por, já adolescente, apaixonar-se por ele sem saber que esse “amor de juventude” a fará cair em desgraça e tomar decisões indesejadas com o propósito de sobreviver em um mundo que ao invés de lhe ajudar, aponta o dedo na cara de forma julgadora.

Mais tempo se passa e Cristina tornou-se adulta e foi transformada em uma acompanhante de alto luxo graças aos ensinamentos de Olívia Durão, uma alcoviteira que a acolheu como pupila nas artes da alcova. Endurecida pela amargura de uma vida ao mesmo tempo luxuosa e degradante, ela reencontra seu primeiro amor e fica determinada a conquistá-lo e voltar triunfante ao lar que um dia a rejeitou. Porém, a colaboração de Eduardo, que possui uma ligação de sangue com Olívia, nesse plano será capaz de transformar o que seria um plano de vingança e reconquista em algumas lições que todos os envolvidos, queiram ou não, aprenderão para jamais esquecerem.

É a hora do jardim de espelhos refletir as verdadeiras cores de cada um.






O que pretendo é fazer, nessa resenha, é com que cada um de vocês entenda porque é altamente necessário (grafe isso em letras graúdas) ler esse livro, Jardim de Espelhos, da minha amiga escritora Veridiana Maenaka, autora de Onde o amor se esconde, que eu resenhei nesse mesmo blog, que se Deus quiser eu ainda vou abraçar com muita força e agradecê-la por existir e ser quem é.

Os motivos para recomendar a leitura são os mais variados, isso que romance de época não é dos meus gêneros favoritos, o que estou tentando mudar. Mas esse e o outro que ela escreveu com certeza são, pelo menos até agora, meus favoritos. Razões (é a mesma coisa que motivos, sim?): é excelente, tem personagens bem construídos e excelentes e é dono de um desenvolvimento fantástico, além de uma protagonista que mostra a que veio sem rodeios. É tudo isso e mais um pouco.




Agora vamos à reflexão: você é uma moça de dezesseis anos na São Paulo de 1896, sozinha e desamparada após fazer descobertas que fariam qualquer um querer fugir sem rumo. Pergunto: o que você faria? Acharia um emprego e tentaria sobreviver disso mesmo sabendo que naquela época era tudo completamente diferente com relação às mulheres? Mas... e se você tem um sério problema de personalidade que consiste em associar felicidade com dinheiro e status? Bem, a protagonista, chamada Maria Cristina Ribeiro, ou simplesmente Cristina, tentou passar desapercebida, só que ser muito bonita e dona de um temperamento difícil a levou a um caminho que nenhuma mulher deveria seguir. Como está na sinopse, então não é um spoiler. Mas, melhor eu explicar porque estou certa de que os orbitantes ficaram meio confusos lendo até aqui.

Voltemos a 1880, no Vale do Paraíba, onde uma jovem e sua mãe estão vivendo praticamente isoladas do resto do planeta por um motivo muito complicado: a senhorita em questão está grávida e é solteira. Adivinha o que a senhora mãe dela em questão planeja? Se não souberem responder, juro que entendo. Poderia ter sido pior e inclusive, a senhora Ivone cogitou isso na maior cara dura no livro. No entanto, a resposta ainda é muito cruel: ela rejeita a netinha recém-nascida e a entrega nas mãos de uma mulher humilde que não gosta de crianças, mas ama dinheiro, além de ter um marido que definitivamente não merece qualquer comentário positivo.

Claro que um casal tão malogrado desses criar uma criança nem brincando poderia terminar bem. Crescendo sem nenhum afeto da parte da família adotiva e ignorante das próprias origens, além de sentir desde sempre que nunca foi realmente bem-vinda entre eles, Cristina desenvolve um temperamento forte e muito genioso que vai levá-la a caminhos muito complicados e dolorosos e fazê-la tomar algumas decisões muito idiotas. (Portanto, gente, um alerta: crianças tem uma incrível percepção de mundo e as nossas atitudes, boas ou ruins, refletem nelas mais tarde.) Uma delas causando as desventuras dela em São Paulo que a levam até uma certa senhora de nome Olívia Durão. Conhecida alcoviteira da cidade que tem meio planeta nas mãos por mais que a atividade dela seja ilícita para os homens e condenável para Deus, pelo menos no ponto de vista de um dos personagens, Guilherme, que protagoniza com Cristina algumas das melhores conversas do livro apesar do posicionamento inicial dele não ser dos mais louváveis, mas como era um tempo bem antigo, é compreensível ainda que esse comportamento se repita nos dias atuais. Inclusive é incrível como alguns diálogos entre eles ainda podem ser usados hoje. Imagino que perguntarão o que é uma alcoviteira? Significa que Olívia treina moças com potencial (segundo ela própria) para serem acompanhantes de alto luxo ou em bom português, prostituta de alto nível.




Depois disso, eu e muitos outros que lemos o livro imaginamos que a Cristina adquiriu incomum dureza após tanto tempo nessa história, já que a trama dá um salto de sete anos no correr de doze capítulos, sem detalhes porque não dou spoilers. Ela, entretanto, apesar de sempre se mostrar forte e resoluta em tudo, mostra uma face um tanto romântica e infantil, algo decididamente não condizente com quem ela é, porém, é compreensível por um lado e muito irritante por outro. Compreensível porque no fundo, ela nunca realmente lidou com essa situação, o que quer dizer sentar e conversar sobre para colocá-la em pratos limpos. Se bem que é complicado pensar nisso quando se tem dezesseis anos. Pode mudar a época, mas a adolescência dificilmente não é a mesma fase em que fazemos burradas. Para quem não notou, ele é o responsável por ela ter “se desonrado” (feito sexo antes de casar, caso não tenha ficado claro). Irritante porque desde o começo sabemos que esse reencontro vai ter consequências no mínimo desastrosas e Cristina parece ser a única a não ver que o antigo amor é um playboyzinho sem qualquer maturidade ou sentimentos verdadeiros. Até o final do livro eu detestei ele com sinceridade e achei bem feito ele ter recebido o que recebeu no final. É como sempre se diz: tudo o que vai, inevitavelmente volta.

Entretanto, mesmo o André não parecia, a princípio, saber se ama ou não a Cristina, pois ele também nunca lidou com essa separação de fato. Nunca realmente ponderou a situação de forma racional. No fundo, porém, é bem evidente que as ações dele nada mais foram que uma maneira de tentar reparar os erros dele tardiamente. Só que ele deliberadamente ignorou, porque dificilmente ele não saberia ou talvez ele ignorasse, uma coisa: reparar um erro com outro ainda pior não é a forma certa de agir. Dizer simplesmente “eu sinto muito se te causei mal” também não colabora 100%, mas é uns 200% melhor que dar falsas esperanças. A grande dor passa logo e pelo menos é só uma. Melhor do que viver com uma mentira 24 horas por dia.

Como em qualquer história realmente boa, ainda que com aqueles clichês do gênero que se bem feitos geram obras lindas, existe aquele conflito: a protagonista se determina a reconquistar seu amor de infância e a voltar à sua antiga casa triunfante. É aí, porém, que surge Eduardo Marques, possivelmente o mais sensato e também o mais provocador, e provocantemente delicioso, personagem masculino da trama. Que definitivamente merece um lugar no meu coração por ser tão bondoso, apesar de que o início dele foi bem difícil no meu ponto de vista, sem perder o jeitinho jocoso-tonto com a Cristina, com quem ele protagoniza os diálogos mais engraçados e/ou apimentados da história. É impossível não soltar pelo menos algumas gargalhadas quando eles conversam ou ficar incrivelmente perplexo com a sinceridade absurda dele com relação a ela e é mais impossível ainda não torcer para ele de todas as formas.

Com certeza devia ter dito isso antes, mas, se tivesse de definir quem é o grande antagonista, em bom português, vilão, da história, eu diria que esse prêmio vai para Ivone Monteiro por merecimento. Falando com sinceridade, nunca tinha conhecido uma personagem tão odiosa e sem coração como ela e olha que já vi uma penca desses em todo o tipo de mídia. Como se não bastasse ter rejeitado a neta, faz isso pela segunda vez e de todas as maneiras, acaba sendo a principal culpada por Cristina acabar indo por um caminho pelo qual nenhuma mulher deveria seguir por mais que riqueza, conforto e estabilidade sejam tentadores. Ou como a Henrieta, filha dela, de quem vou falar no próximo parágrafo, diz a certa altura: a pior degradação a que uma mulher poderia se submeter. Ela é, muito possivelmente, uma daquelas criaturas que nunca realmente aprendeu a amar e só se importa com a opinião dos outros ao invés de tentar ver as coisas de uma maneira menos idiota e mesquinha. Uma daquelas pessoas da quais nem pena você é capaz de sentir por mais que você tente ver as coisas por outro ângulo. É nojo misturado com ódio porque a todo momento você quer matar a personagem.




O mesmo podendo se dizer da Matilde, cuja situação chegou a me causar certa piedade em um momento. Embora eu continue achando-a uma sacana completa. Ainda, Henrieta, por sua vez, decididamente mereceu, pelo menos até certo ponto da história, o título de “capanga relutante”, porque ela realmente soube como se estragar aos olhos de quem lê o livro, porém, como já falei: o livro se passa há mais de cem anos, ou seja, algumas atitudes daquele tempo que eram consideradas corretas antes seriam impensadas nos dias atuais, ou nem tanto, já que algumas delas ainda não “saíram de moda”, por assim dizer. Não ajuda o fato que ela era muito jovem, e manipulável, e basicamente tinha apenas a mãe como família. Ou seja, ela não tinha muita opção a não ser obedecer cegamente. Isso, pessoal, é apenas um pouco do que vocês verão no livro. (Isso que a resenha tá ficando mais comprida que a escada do Chapolin Colorado.)

Falando um pouco mais, eu me lembro de um dia em que o ex-marido da autora, o também escritor, por sinal excelente, Walter Tierno, autor de Cira e o Velho, tema da resenha anterior, disse que o livro tinha certas semelhanças com as novelas de época das seis da Rede Globo, só que com bem mais pimenta. Essa foi a primeira, e espero que a única, vez que discordei veementemente dele. Jardim de Espelhos nos proporciona uma série de sérias reflexões muito mais profundas do que qualquer uma dessas tramas televisivas por melhores que elas sejam ou tentem ser.

Uma sendo: você seria capaz de ir até onde a Cristina foi em nome do que ela acreditava e queria? Isso não se refere apenas a tudo o que eu disse até então, tem bem mais por trás. Só pensem em como ela se sentiu descobrindo que nunca teve nada na vida, sequer afeto, porque alguém disse que ela não tinha esse direito só por ter nascido fora do casamento. Ivone poderia ter agido de outra forma? Talvez, se ela tivesse mais caráter, coisa que ela prova desde o começo que não tem sequer um pingo. Honestamente, eu me pergunto como a neta dela saiu boa coisa com uma avó que nem essa, juro. Claro que as alternativas ao que ela fez não seriam as melhores, porém, se ela tivesse ponderado um pouco mais, as coisas talvez pudessem ter sido diferentes.

Enfim, Jardim de Espelhos é um maravilhoso livro cheio de orgulho, teimosia, desejos de vingança, desejos de amor, desejos físicos, loucuras, diálogos excelentes e personagens extraordinariamente humanos. Recomendo muito fortemente para quem quiser um “romance de época” bem brasileiro e com uma qualidade que só os melhores escritores podem proporcionar.








Renata Cezimbra
Professora desempregada, leitora voraz,
escritora doida e vampiróloga amadora.
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