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[Resenha] O Buraco da Agulha - Por Ken Follett

25 setembro 2018

Título: O Buraco da Agulha
Autor (a): Ken Follett
Páginas: 336
Editora: Arqueiro
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Sinopse: O ano é 1944. Os Aliados estão se preparando para desembarcar na Normandia e libertar os territórios ocupados por Hitler, na operação que entrou para a história como o Dia D. Para que a missão dê certo, eles precisam convencer os alemães de que a invasão acontecerá em outro lugar. Assim, criam um exército inteiro de mentira, incluindo tanques infláveis, aviões de papelão e bases sem parede. O objetivo é que ele seja fotografado pelos aviões de reconhecimento germânicos.  O sucesso depende de o inimigo não descobrir o estratagema. Só que o melhor agente de Hitler, o Agulha, pode colocar tudo a perder. Caçado pelo serviço secreto britânico, ele deixa um rastro de mortes através da Grã-Bretanha enquanto tenta voltar para casa. Mas tudo foge a seu controle quando ele vai parar numa ilha castigada pela tempestade e vê seu destino nas mãos da mulher inesquecível que mora ali, cuja lealdade, se conquistada, poderá assegurar aos nazistas a vitória da guerra. Na obra-prima que lhe garantiu, há 40 anos, a entrada no cenário da literatura, Ken Follett fisga o leitor desde a primeira página, com uma trama repleta de suspense, intrigas e maquinações do coração humano.


O ano é 1940. A Segunda Grande Guerra está perto de fazer um ano, o Terceiro Reich de Hitler pouco a pouco está tomando a Europa e provavelmente nem mesmo o Reino Unido está a salvo de ter seu Império arruinado pelos planos megalomaníacos do ditador alemão. Ainda mais quando um espião conhecido como Die Nadel (O Agulha) está agindo no país sem que ninguém saiba e coletando informações preciosas para garantir a vitória da Alemanha e deixar a até então poderosa Inglaterra tremendo de medo.

Ao mesmo tempo, a quilômetros de distância, Lucy, uma adorável e bem criada jovem, e David, que sonha em ser piloto de guerra, são um jovem e apaixonado casal que se entrega ao amor, tornando-se um só por algumas horas, uma semana antes do casamento. No entanto, o que era para ser a coroação de um belo sonho torna-se um amargo pesadelo quando, ao irem para a lua-de-mel, sofrem um grave acidente de carro e o marido tem as duas pernas amputadas pela gravidade do mesmo e a esposa nem desconfia, ainda, que espera o primeiro filho do casal.

Mas o que poderia unir duas histórias tão diferentes?

A Ilha da Tormenta, o lugar onde Lucy e David vivem agora no ano de 1944, com um filho de três anos, Jo, sem imaginar que suas vidas sofrerão uma inesperada virada que provavelmente pode mudar para sempre o rumo da guerra que se desenrola no continente. Se o Agulha conseguir a lealdade da bela mulher.




Olá, mais uma vez, orbitantes da Galáxia de Ideias, é a outra vez a Lady Trotsky vindo indicar mais um livro para vocês, com uma resenha para dizer-lhes o porquê de lê-lo.

Dessa vez eu apostei em outro autor famoso que eu ainda não tinha lido e novamente, me arrependi de não ter lido antes. Acabou que comecei justamente pelo romance de estreia dele, publicado em 1978, cuja edição brasileira comemorativa de quarenta anos acabou de sair pela Arqueiro, O Buraco da Agulha, do britânico Ken Follett. Autor mais conhecido aqui pela duologia Os Pilares da Terra, a trilogia O Século e os vários romances de espionagem passados na época da Segunda Guerra Mundial, como As Espiãs do Dia D, O Voo da Vespa, A Chave de Rebeca (cuja leitura parei no começo porque estava achando meio tedioso, mas pretendo recomeçar porque na ocasião eu talvez não estivesse na vibe para a leitura) e o que vou comentar neste texto. Cujo trabalho gráfico é um capricho só: a capa totalmente combina com a aura de suspense da trama, a fonte tem um bom tamanho para leitura e a diagramação está bem padronizada. Com certeza mais um trabalho primoroso da equipe gráfica da editora.

"Godliman se desligou da conversa e se lembrou de um mês de abril em que tinha sentido saudade da Inglaterra, escondido no galho alto de um plátano, espreitando através da névoa fria um vale francês atrás das linhas alemãs. Não conseguia enxergar nada além de formas vagas, mesmo com o telescópio, e estava prestes a descer e caminhar cerca de um quilômetro e meio quando três soldados alemães surgiram do nada, se sentaram sob a árvore e começaram a fumar. Passado algum tempo, eles pegaram um baralho e iniciaram um jogo, e o jovem Percival Godliman percebeu que aqueles homens tinham encontrado um modo de escapar do serviço e permaneceriam o dia todo ali. Ficou na árvore, praticamente sem se mexer, até que começou a tremer de frio, os músculos travaram por causa das cãibras e a bexiga pareceu a ponto de estourar. Então sacou o revólver e atirou nos três, um depois do outro, observando suas cabeças com cabelos cortados à escovinha. E assim três pessoas que riam, xingavam e apostavam o dinheiro do pagamento simplesmente deixaram de existir. Aquela tinha sido a primeira vez que matara alguém, e tudo que conseguiu pensar foi: Só porque eu precisava mijar." - Pág. 29




Se conhecer História a fundo, mas não gostar de ficção histórica realista, esse não é um livro para você. Pois por melhor que o andamento da trama seja, para quem é particularmente bom na matéria, como eu costumava ser na época da escola, a gente vai saber o que vem pela frente, mas ainda sim a leitura valerá demais a pena. Porque não tem como fechar o livro antes de saber o que vai acontecer em razão da escrita fluida e ao mesmo tempo frenética do Follett. Mesmo que de algum modo tenhamos uma ideia do que vem, é justamente aí que reside a excelência do livro: a heroína é uma dona de casa simples que vive em uma pequena e isolada ilha do Atlântico, acima da Escócia.

Como o próprio Ken Follett diz no novo prefácio que ele escreveu nessa edição comemorativa, a Lucy, embora o autor admita que esse foi um recurso mais literário que propriamente histórico, é um reflexo da mudança do papel da mulher na sociedade naquele tempo, em que enfim nós ocupávamos em massa o lugar que até então era um espaço exclusivamente masculino. Inclusive como heroínas literárias, já que até pouco tempo antes, a mulher na literatura, tanto personagens como autoras, estava relegada a um papel muito secundário mesmo que fosse protagonista, já que dificilmente a mocinha se safava sozinha do perigo.

"– Agora vou lhes dizer como eu pensaria se fosse Winston Churchill – começou. – Duas opções estão à minha frente: a leste do Sena ou a oeste do Sena. O leste tem uma vantagem: fica mais perto. Mas na guerra moderna só há duas distâncias: dentro do alcance dos caças e fora do alcance dos caças. As duas opções estão dentro do alcance dos caças. Então a distância não é importante. O oeste tem um grande porto, Cherbourg, mas o leste não tem nenhum. E, mais importante: o leste é mais bem fortificado do que o oeste. O inimigo também tem serviço de reconhecimento aéreo. Portanto, eu escolheria o oeste. E como procederia nesse caso? Tentaria fazer com que os alemães pensassem o oposto! Mandaria dois bombardeiros a Pas-de-Calais para cada um que mandasse à Normandia. Tentaria derrubar todas as pontes sobre o Sena. Mandaria mensagens falsas por rádio, relatos de espionagem falsos, disporia minhas tropas de modo a enganar. Enganaria idiotas como Rommel e Von Roenne. Esperaria enganar o próprio Führer!" - Pág. 120

No caso de O Buraco da Agulha, acontece o contrário, o que foi um avanço considerável para a época, mas como os detalhes são spoiler, não posso dizer mais que isso, porém, Ken mostra aos leitores que muitas vezes o verdadeiro heroísmo está em ser capaz de suportar as piores adversidades e ainda conseguir ficar de pé no final.




Porque é basicamente isso que Lucy se obriga a fazer quando se vê casada com um marido aleijado e ainda por cima, grávida de um filho que David acaba não desejando em razão das circunstâncias. O que é outro excelente ponto do livro: o marido não quer lidar com a própria deficiência, o que acontece muito na vida real, e acaba descontando, com falta de afeto e carinho, na esposa, que por sua vez, tem que viver um dia de cada vez e cuidar do pequeno Jo completamente sozinha, já que o esposo passa o dia todo fora fazendo todo o tipo de tarefa na tentativa de ignorar o problema dentro da cabeça dele. Mas é claro que ele não consegue, já que a evidente incapacidade dele de dar pelo menos um carinho a ela prova que ele não se vê como um “homem completo” capaz de proporcionar a vida de casa que com certeza ela mereceria. O que acaba se tornando o mote para a protagonista a cometer um engano muito sério que também não posso detalhar por ser spoiler, porém, posso falar que isso a faz muito mais crível e humana, pois as circunstâncias contribuem para isso acontecer.

"Se fosse visto em terreno aberto não seria capturado imediatamente, já que os policiais dos condados usavam bicicletas, e não carros. Mas o policial telefonaria para as delegacias e em alguns minutos haveria carros perseguindo-o. Se visse um policial, decidiu, teria de abandonar o carro, roubar outro e desviar da rota planejada. Mas nas terras baixas escocesas, pouco povoadas, havia boas chances de chegar até Aberdeen sem passar por um policial do interior. Já as cidades eram outro departamento. Lá o perigo de ser perseguido por uma viatura era muito grande. Ele teria poucas chances de escapar: seu carro era velho e relativamente vagaroso, e em geral os policiais eram bons motoristas. Sua melhor chance seria sair do veículo e ter esperança de se misturar à multidão ou se perder em alguma rua afastada. Pensou em abandonar o carro e roubar outro a cada vez que fosse obrigado a entrar numa cidade grande. O problema era que estaria deixando um rastro enorme para o MI5 seguir. Talvez a melhor solução fosse um meio-termo: entraria nas cidades, mas tentaria só usar ruas secundárias. Olhou seu relógio. Chegaria a Glasgow por volta da hora do crepúsculo, depois teria o benefício da escuridão." - Págs. 167 e 168.

Além de detalhar a rotina da protagonista, Follett também mostra como funcionava o esforço de guerra na Inglaterra enquanto tentando combater o nazismo e capturar os porventura aliados do maldito H em solo britânico, além de umas pinceladas sobre o regime nazista que nos mostram até onde eles estavam dispostos a ir pelo que acreditavam e queriam. Simplesmente fica impossível não se perguntar como aqueles homens, e também mulheres, eram capazes de suportar tanta pressão e como era possível que alguém, no caso o Agulha, simplesmente não se questionasse sobre o regime ao qual servia. Sim, sabemos que no amor e na guerra vale tudo, mas à medida que a leitura avança, chega a dar um aperto no coração imaginar que há décadas isso realmente aconteceu: gente pouco se importando com o outro em nome de algo que futuramente poderia dar desastrosamente errado. Alguma semelhança com o Brasil em 2018? Muita. Eu diria perigosamente excessiva.


"Acendeu o pequeno abajur ao lado da cama. O esforço o exauriu e ele se deixou cair de novo no travesseiro. Era apavorante estar tão fraco. Quem acredita que a Força é o Certo deve ser sempre forte, e Faber tinha consciência suficiente para saber as implicações de sua própria ética. O medo nunca estava longe da superfície de suas emoções; talvez por isso tivesse sobrevivido por tanto tempo. Era cronicamente incapaz de se sentir seguro. Entendia, daquele modo vago como entendemos as coisas mais fundamentais sobre nós mesmos, que sua insegurança era o motivo para ter escolhido a profissão de espião: era o único tipo de vida que lhe permitia matar instantaneamente alguém que representasse a menor ameaça. O medo de ser fraco fazia parte da síndrome que incluía sua independência obsessiva, sua insegurança e seu desprezo pelos superiores militares." - Pág. 205

Por fim, como eu desejo que vocês tenham a mesma experiência de leitura que eu tive, não vou detalhar mais do que tudo o que eu disse até o momento, vou é recomendar fortemente O Buraco da Agulha para quem gosta de um belo romance de espionagem cheio de suspense e com bastante realismo histórico.







Renata Cezimbra
Professora desempregada, leitora voraz,
escritora doida e vampiróloga amadora.
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