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[Resenha] Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi - Por Hillary Jordan

26 janeiro 2018

Título: Mudbound: lágrimas sobre o Mississippi
Autor (a): Hillary Jordan
Páginas: 272
Editora: Arqueiro
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Compre: Amazon || Submarino || Americanas

Sinopse: Um amor proibido, uma traição terrível, uma agressão selvagem. Um romance de força impressionante, que nos faz mergulhar nas contradições do Mississippi pós-Segunda Guerra Mundial.
Ao descobrir que o marido, Henry, acaba de comprar uma fazenda de algodão no Sul dos Estados Unidos, Laura McAllan, uma típica mulher da cidade, compreende que nunca mais será feliz. Apesar disso, ela se esforça para criar as filhas num lugar inóspito, sob os olhos vigilantes e cruéis de seu sogro.
Enquanto os McAllans lutam para fazer prosperar uma terra infértil, dois bravos e condecorados soldados retornam do front e alteram para sempre a dinâmica não só da fazenda, mas da própria cidade. Jamie, o jovem e sedutor irmão de Henry, faz Laura de repente renascer para a vida, enquanto Ronsel, filho dos arrendatários negros que trabalham para Henry, demonstra uma altivez que não será aceita facilmente pelos brancos da região.
De fato, quando os jovens ex-combatentes se tornam amigos, sua improvável relação desperta sentimentos violentos nos habitantes e uma nova e impiedosa batalha tem início na vida de todos.
Alternando a narrativa entre vários pontos de vista, este premiado romance oferece ao leitor diferentes versões dos acontecimentos. Os personagens, lutando por sentimentos de amor e honra num lugar e época brutais, se veem dentro de uma tragédia de enormes proporções e encontram redenção onde menos esperam.


"Pela mesma lógica, meu sogro foi assassinado porque nasci mais para comum do que para bonita. Esse é um início possível. Há outros: porque Henry salvou Jamie de um afogamento durante a grande enchente de 1927 no rio Mississippi; porque Pappy vendeu as terras que deveriam ter sido de Henry; porque Jamie ficou muito tempo longe, pilotando bombardeiros durante a guerra; porque um negro chamado Ronsel Jackson brilhava mais do que devia; porque um homem negligenciou a mulher, um pai traiu o filho e uma mãe buscou vingança. Suponho que os inícios dependam de quem está contando a história. Outros certamente começariam de um ponto diferente, mas acabariam chegando ao mesmo lugar."

No ano de 1939, Laura Chappell era uma mulher de trinta e poucos anos de idade, que ao contrário da maioria de suas amigas ainda não havia contraído matrimônio. Crente de que já havia atingido a idade na qual havia poucas chances de vir a se casar, ela contentava-se com seus dias monótonos nos quais dava aulas em uma escola particular, jogava bridge com suas amigas e era muito próxima da família. No entanto, para sua surpresa, ao surgir em sua vida Henry McAllan, um engenheiro amigo de seu irmão, todas as suas baixas perspectivas de repente se elevam, e em pouco tempo ela se vê completamente apaixonada pelo homem robusto e sólido que conhecera. Para sua surpresa, Henry também lhe dedica o mesmo afeto e em pouco tempo ambos se casam. Os dias correm felizes com a casinha na  cidade perto dos pais de Laura e as duas filhas que nascem, porém, certo dia, Henry declara que conseguiu realizar seu grande sonho de menino e que eles estão se mudando para uma fazenda que ele comprou. Apavorada, Laura vai contra a sua vontade para o campo, e lá sua vida muda completamente.

"Após o jantar, fui para o jardim, deitei na grama molhada e fiquei olhando para o céu. Anoitecia. O horizonte era aquela mistura impressionante de roxos e azuis que dura apenas alguns minutos antes de dar lugar ao breu total. Ainda me lembro de ter pensado naquele momento: “Lá em cima não existe nada de ruim. Não tem enchente nem água lamacenta para afogar ninguém. Não tem feiura nem ódio. Apenas os dez mil tons diferentes de azul e cinza, todos igualmente bonitos.”
Eu seria piloto como o Lindbergh. Viveria um monte de aventuras, realizaria façanhas, defenderia meu país. Minha vida seria uma longa sucessão de glórias. Eu seria um deus.
Quinze anos mais tarde as Forças Armadas realizaram meu sonho. Não vi glória nenhuma. Muito menos fui um deus."

Para começar, o estilo de vida da fazenda é difícil, duro e a faz estranhar e aos poucos se afastar do marido por questões pessoais entre eles. Depois, chega à fazenda Jamie, o irmão de Henry: novo, bonito e sedutor, o rapaz logo conquista todos da redondeza, inclusive Laura, que se apaixona pelo cunhado. Além disso, Jamie se mostra um homem muito à frente de seu tempo, e constrói uma amizade com Ronsel, um homem negro e filho dos empregados da fazenda, o que desperta a ira de muitos, que sequer admitem que os dois rapazes podem estar juntos em um banco da frente de um carro. à medida que as semanas passam e que Jamie descumpre os conselhos de não se aproximar do novo amigo, as coisas se agitam no pequeno lugar e pessoas cruéis resolvem colocar um fim na relação de uma vez por todas.

"Nunca pensei que fosse sentir tanta saudade. Não da Alemanha nazista, porque só um louco sentiria falta de um lugar como aquele. A saudade era do homem que fui no período em que estive lá. Na Alemanha, eu era um libertador, um herói. No Mississippi, era apenas um preto empurrando um arado. E, quanto mais me demorava ali, mais me tornava somente isso."

Trazendo cenas fortes, realistas e um cenário interessante e ao mesmo tempo cruel, Mudbound mexe com questões densas como o racismo, o amor, o ódio e tudo que há entre esses sentimentos.

"A verdade não é tão simples. A morte pode ser inevitável, mas o amor, não. O amor, você tem que optar por ele."

"Esse é o final que queremos, tanto eu quanto você. Não é um final muito provável, mas garanto que é possível. Basta que esse homem trabalhe com afinco e reze com fé. Que seja teimoso e conte sempre com a sorte a seu lado. Que realmente seja um iluminado."








Desde a primeira vez que vi Mudbound, senti que ele era o tipo de livro que me tocaria e que mexeria comigo, pois sempre gosto de tramas fortes e que trazem uma grande densidade. Então, assim que o tive em mãos iniciei rapidamente a leitura, e foi um daqueles livros que assim que comecei não consegui mais parar, tamanha é a curiosidade que ele nos causa à medida que vai apresentando suas diversas camadas e seus diversos segredos e é um daqueles enredos que traz cenas tão marcantes que são capazes de nos deixar arrepiados, como se estivéssemos vivenciando aquilo na pele e no momento presente.






Tudo bem, admito que mais ou menos nas primeiras cinco páginas, às quais começam com a narrativa de um acontecimento significante, eu fiquei meio sem compreender o cenário e o que estava sendo descrito, e por alguns minutos tive receio de ter feito uma escolha errada ao resolver lê-lo. No entanto, pouco tempo depois, quando uma personagem começa a explicar o caminho até chegar naquela cena inicial que presenciei, o livro se tornou completamente envolvente, e posso dizer até mesmo apaixonante, pois a autora soube criar os personagens com uma humanidade ímpar, e descreve seus pensamentos de forma muito sincera e real, fazendo com que cada um deles se aproxime muito do leitor e faz com que sintamos o que eles sentem.

Um dos pontos mais atraentes desse enredo é o período no qual ele se passa, uma vez que parte acontece no início e parte no fim da segunda guerra mundial, e não é novidade para ninguém que eu gosto muito de acompanhar as histórias que se passam nessa época. Além disso, toda a questão do preconceito racial é forte, chocante e mexe conosco de uma maneira indescritível, e confesso que em algumas cenas relacionadas a isso, nas quais vemos a presença do Ku Klux Klan, entidade que defendia a supremacia branca, meu estômago embrulhou e tive vontade de chorar com tanta crueldade e tanta dor somente por causa da cor da pele de uma pessoa. Destaco ainda que esse não é um livro daqueles cheio de romances fofinhos, juras de amor e felizes para sempre, é, na verdade, feito de sentimentos mais densos e de questões mais pontuais como a luta para sobreviver, os sentimentos que precisamos esconder, a vida completamente real e difícil que algumas pessoas levam sem que elas tenham sorte e outros que nos deixam melancólicos e reflexivos.






Esse livro me agradou muito, no entanto, o seu final me deixou com um sentimento de "quero mais", uma vez que terminou muito em aberto e levantou várias possibilidades. Admito que eu esperava um epílogo que fosse mais conclusivo e detalhado, e foi o único fator que chegou perto de se tornar negativo, embora não tire a beleza do enredo.

Como já mencionei, todos os personagens possuem lados muito humanos, e em vários momentos do livro sentimos amor e ódio por cada um deles e por suas ações impensadas, impulsivas ou somente ações por pura necessidade. Dentre todos os que encontramos, Ronsel e sua família foram os que mais me marcaram, provavelmente por demonstrarem muito bem a vida difícil que os negros levavam no Mississippi, e por serem submetidos a uma submissão da qual sonham fugir, mas devido as suas condições financeiras são obrigados a engolir tudo calados porque a sociedade os considerava indignos de reclamar, e consideravam que cada coisa que faziam por eles era um favor. Ronsel, o filho mais velho dos Jackson é um homem que lutou na guerra e lá teve seu valor merecido, e inclusive volta com medalhas no peito devido a sua bravura, mas para o povo da sua cidade ele não passa de um mero lixo, e isso cortou meu coração. Jamie também é um personagem marcante e assim como ele teve a capacidade de conquistar os personagens do livro com seu carisma, eu também fui conquistada e torci muito por ele, e de certa forma fiquei triste com o seu fim, bem como de outros personagens a quem me afeiçoei. Já Laura e Henry, o casal da fazenda, me deixaram com sentimentos completamente ambíguos, e ainda não sei se concordo com parte de suas atitudes ou não, mas certamente são protagonistas importantes para o enredo.






Mudbound é narrado em primeira pessoa, e nele temos vários pontos de vista como o de Ronsel, Jamie, Laura, Henry, dentre outros que ajudam a compor uma colcha de retalhos onde nem tudo é o que parece e onde cada um tem uma visão dos acontecimentos. Além disso, realizei a leitura em ebook e não encontrei erros.

Mudbound foi adaptado para o cinema e será lançado no dia 15 de fevereiro e admito que embora eu não seja a maior fã de filmes, estou ansiosa para descobrir como adaptaram e interpretaram algumas cenas que para mim se destacam como as mais fortes da literatura.  Sua adaptação está concorrendo ao Oscar em várias categorias como fotografia, melhor atriz coadjuvante com Mary J. Blige, melhor roteiro adaptado e melhor canção.

Recomendo essa obra para todos os leitores que amam enredos densos, fortes e que tratam de temas relevantes como o preconceito, a humanidade, o amor e a vida real.












Tamara Padilha
Leitora compulsiva com foco em quase todos os gêneros
(exceto os romances de época e ficção científica).
Apaixonada por escrita, e em breve bacharel em direito.
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16 comentários:

  1. Boa tarde Tamara,

    Esse livro está na minha lista de desejados, assisti o filme hoje na cabine de imprensa e gostei demais, é um filme forte e impactante, pela sua resenha vejo que a história é bem mais tenso, quero muito ler esse livro, o filme não me sai da cabeça, espero que assista também.....bjs.


    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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  2. Olá...
    Ao ler sua resenha fiquei aqui remoendo de ódio por não ter solicitado esse livro... Na época até estava interessada nesse, mas, acabei optando por outro... Lamentável!
    Achei a premissa bem interessante e acredito que essas cenas de racismo devem ser muito fortes. Sua resenha está linda e me animou ainda mais a ler a obra.
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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  3. Oi Tamara! Legal a dica de leitura, também gosto bastante de livros durante ou pós guerra e essa parece ser uma história bem envolvente! Vou ficar de olho para ver o filme também.

    /Juliane
    Ler, Resenhar e Postar

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  4. Como esse livro é minha próxima leitura estou lendo apenas as suas considerações, sou do tipo de pessoa que nem sinopse leio. Gosto muito de livros e filmes com essa temática e espero gostar da obra assim como você. Já vou preparando meu estômago, ainda mais com sua descrição sobre a kkk e realmente e não espero um romance fofinho de um livro assim, mas saber que o desfecho fica em aberto me assutou, preciso começar logo essa leitura.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  5. Heiii, tudo bem?
    Estou curiosa com esse livro desde o lançamento.
    Mudbound é uma história com certeza forte e que vai mexer com os leitores.
    Fiquei em dúvida se leio o livro antes ou vejo o filme primeiro, apesar de amar um livro, assistir um filme pode ser mais impactante.
    Adorei o que falou do livro, e pretendo ler no futuro.
    Beijos.

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  6. Oiee Tamara ^^
    Eu também tenho uma quedinha por histórias marcantes e com um quê de realidade - crua e nua -,mas ando querendo coisas mais leves agora para não me afundar de tristeza..hehe' Quero lê-lo um dia, mas não o farei tão cedo :/
    Fico feliz em saber que gostou da trama e espero que o filme faça jus ao livro :)
    MilkMilks ♥
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  7. Olá, tudo bem?
    Eu estou doido para assistir ao filme Mudbound, já o livro acabei solicitando para a Editora Arqueiro nesse mês de fevereiro, parece ser de fato uma história marcante. Dica anotada!
    Abraço!

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  8. Olá!!

    Não conhecia o livro e estou super por fora dos filmes do Oscar então realmente não sabia nada da história. Achei um enredo forte e que requer um bom estômago, não sei se leria para já, mas achei uma ideia interessante dar uma chance ao livro mais para frente. Adorei a forma como se expressou e convenceu que essa é uma leitura boa e necessária.

    Beijos

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  9. Oii tudo bem ?
    Adorei a resenha e as fotos ficaram lindas mais infelizmente o livro não me chamou atenção e terei que passar quem sabe um dia eu leia .

    Bjss

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  10. Oi, tudo bem?
    Eu soube desse livro por causa das indicações que o filme recebeu ao Oscar. Confesso que estou em um conflito interno sobre ler ou não. Aliás, nem mesmo o filme tenho certeza se quero assistir.
    Por um lado, a premissa é ótima e os personagens parecem ser tão reais e humanos, que a leitura deve ser realmente interessante. Por outro lado, dá para ver que é uma história muito forte e, no momento, estou procurando livros mais leves.
    De qualquer forma, adorei a resenha e vou anotar a indicação para ler em outro momento.
    Beijos!

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  11. Oi! Acho linda e emocionante histórias assim, que exploram a veracidade de acontecimentos reais. Só fico muito mal depois que leio um livro assim. Fico indignada com as injustiças que ainda perpetuam o mundo.
    Não é uma leitura que vou correndo fazer, mas leria se tivesse a oportunidade um dia.
    Beijos ! Resenha bem escrita!

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  12. Oi.

    Eu também queria muito ler este livro. Ainda não consegui comprá-lo, atéia solcitar a Editora, mas acabei pedindo outro. Quero muito ver o filme também. Queria muito ter participado da cabine de imprensa, mas o lugar era um pouco longe de onde eu moro. Agora, depois da sua resenha, pude ver que o livro vale a pena e estou ainda maid ansiosa.

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  13. Oi Tamara! Tudo bem?
    Eu,depois de ler essa resenha, não consigo deixar de chorar e imaginar, com muita dor no coração, que isso ainda existe e que quem faz não se importa a mínima com isso e faz questão de agir pior.
    Por mais importante ué seja esse livro é que eu devesse lê-lo, acho que não estou pronta ainda.
    Abraços e beijos da Lady Trotsky
    http://galaxiadeideias.com
    http://osvampirosportenhos.blogspot.c

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  14. Olá, eu ja tinha visto a capa desse livro, mas agora que parei para saber mais, e fiquei muito interessada, eu gosto quando o livros nos toca, trás uma mensagem, e esse parece fazer isso, ainda mais por tratar de racismo, ser na segunda guerra, eu adorei e vai pra lista com certeza é fiquei feliz de saber que tem filme.
    A resenha está ótima.
    Parabéns

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  15. Pretendo ler o quanto antes esse livro. O tema me interessa muito. Gosto de histórias densas. Também quero ver a adaptação. Pela comentários, parece ser mesmo um ótimo filme.

    Beijos

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