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[Resenha] A garota alemã - Por Armando Lucas Correa

23 março 2018

Título: A garota alemã
Autor (a): Armando Lucas Correa
Páginas: 408
Editora: Jangada
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Sinopse: Baseado numa história real, A Garota Alemã é um romance magistral. A bordo do famoso transatlântico St. Louis, uma garota de 11 anos e 936 refugiados judeus fogem da Alemanha Nazista. Berlim, 1939. Hannah Rosenthal, de 11 anos, tinha uma vida de contos de fadas. Ela passava as tardes no parque com seu melhor amigo, Leo Martin. Mas, agora, as ruas estão cheias de nazistas. Eles vislumbram uma esperança para sair desse inferno: o St. Louis, um transatlântico que pode propiciar aos judeus uma travessia segura para Cuba. Mas logo as circunstâncias da guerra mudam e o navio que era sua salvação agora parece ser a sua sentença de morte. Nova York, 2014. Anna Rosen, ao fazer 12 anos, recebe um envelope misterioso de Hannah, uma tia-avó que criou o pai falecido. O conteúdo do envelope inspira Anna e a mãe a viajarem a Cuba para conhecer Hannah e descobrir a verdade sobre o trágico passado da família.


"Estamos prestes a ir a algum lugar. Papa não pode continuar mantendo nosso destino final em segredo. Estou pronta para aceitar qualquer coisa. Nada mais pode nos acontecer: estamos vivendo num estado de terror, numa guerra ainda não declarada; não acho que exista muita coisa pior do que isso."

Hannah Rosenthal era uma garota Alemã privilegiada, e ao alto dos seus onze anos, passava o dia correndo pelo bairro onde morava acompanhada por seu amigo Leo, um garoto de quem ela era inseparável, desde o início da infância. Hannah fora uma garota que crescera em meio a um lar rico, e seu pai era um renomado professor acadêmico e respeitado nos mais altos círculos, e sua mãe era uma herdeira com ares aristocráticos que atraía  os olhares para si por onde passava. Porém, tudo começou a mudar no princípio de 1939, quando estava se instaurando uma perseguição frequente aos judeus na Alemanha, e em meio a isso o único pecado de Hannah e sua família era descender dessa raça. Desesperados, e enfrentando perseguições daqueles que antes lhe eram queridos, os pais de Hannah se veem sem muita saída, a não ser abandonar tudo aquilo que lutaram para construir, e deixar para trás a sua pátria, a fim de tentar sobreviver. Dessa forma, após a situação se tornar insustentável, Max, o pai da menina, compra uma passagem para a família no St Louis, um navio que era o seu modo de fuga para um lugar diferente e sem guerra.

"Nós somos monstros. Roubamos o dinheiro dos outros. Escravizamos aqueles que têm menos do que nós. Destruímos o patrimônio do país. Tiramos o sangue da nação. Não prestamos. Cremos em deuses diferentes. Somos impuros. Eu olho para Leo e para mim mesma. Não consigo ver o que há de tão diferente entre ele, Gretel e eu.
Começou a limpeza em Berlim, a cidade mais suja da Europa. Potentes mangueiras de água começaram a nos encharcar para nos deixar limpos.
Eles não nos querem. Ninguém gosta de nós."

A partida foi dolorosa, e Hannah, com tão pouca idade, percebeu-se em uma nova era, na qual ela precisava crescer e ser forte, para apoiar os pais e para sobreviver em meio a tantas adversidades, e, à medida que a menina e os outros 930 passageiros do navio adentram o mar europeu, rumo a américa, aumentam também as incertezas de como será a chegada a um novo país, com cultura, língua e costumes diferenciados. Ao chegar em cuba, Hannah e todos os outros percebem que aquilo é tudo muito mais difícil do que esperavam, e quando um decreto faz com que o visto de alguns dos que estavam na embarcação sejam inválidos, Hannah se vê em meio à decisões difíceis, situações extremas e em meio ao mais puro instinto de apenas sobreviver.

"Para ela não existe perdão. E, mesmo que quisesse esquecer, não consegue."

Setenta anos depois, Anna rosen é uma garota de quatorze anos, que pouco sabe sobre a segunda guerra mundial, até o dia em que recebe alguns cartões postais de uma tia de seu ausente pai chamada Hannah, de quem ela nunca havia ouvido falar. Porém, essa nova mulher em sua vida se mostra como uma luz no fim do túnel para que Anna tire sua mãe da letargia que a acomete há anos, e também para que a menina, tão confusa, possa finalmente saber mais sobre seu pai, tragado por uma grande tragédia antes mesmo de seu nascimento...

"Tenho certeza de que meu pai não vai voltar, que eu o perdi para sempre num dia ensolarado de setembro. No entanto, quero saber mais sobre ele. Não tenho mais ninguém além da minha mãe, que vive trancada num quarto escuro, dominada por pensamentos sombrios que ela não conta a ninguém. Eu sei que às vezes não há respostas, e temos que nos conformar com isso, mas não consigo entender por que, quando eles se casaram, ela não quis saber mais sobre ele; por que não tentou conhecê-lo melhor. No entanto, agora é tarde demais. Mamãe é assim."

Com narrativa pungente, dolorosa e tocante, Armando Lucas Correa trafega por diversos cenários, e nos mostra as dores emocionais da segunda guerra mundial, que permaneceram por mais tempo que as físicas e tiveram a capacidade de marcar e modificar gerações.

“Não abra a caixa até nos encontrarmos novamente, Hannah! Eu vou encontrar você, eu juro! Hoje, amanhã ou em outra vida, mas vou encontrá-la! Está me ouvindo, Hannah?”







Não é novidade para ninguém que eu sou uma leitora que gosta dos livros de drama, e, sendo assim, os de guerra sempre tem um lugar garantido dentro da minha lista de leituras. Dessa forma, assim que vi uma blogueira que acompanho exaltando e falando sobre A garota alemã não perdi tempo e fui procurá-lo, e de cara a sinopse me encantou. Após algum tempo, consegui adquirir o livro e logo o comecei, bastante ansiosa, mas também temerosa por todas as expectativas que eu vinha depositando nele. Mas, preciso dizer que A garota alemã foi um livro muito melhor e mais incrível do que eu imaginava, e me tragou de uma forma profunda para dentro de suas páginas, como a muito não acontecia. A garota Alemã foi, antes de tudo, uma história única que apesar de trazer um cenário e acontecimentos que eu já vi diversas vezes em outras histórias, também conseguiu ser único, diferente e especial, e ao mesmo tempo que emociona com suas dores, também encanta com a força contida em suas páginas e em seus personagens.

Algo que chama atenção nessa trama fascinante é que temos em paralelo e inicialmente a história de duas crianças, cada uma perdida ao seu modo e em seu tempo, mas ainda assim, histórias que se conectam e que são igualmente emocionantes. De um lado, há Hannah, aquela garotinha feliz na Alemanha nazista que vê seu mundo ruir ao perder seu lar e as coisas que amava, e de outro Anna, a menina que herdou o nome da tia distante e desconhecida, e sempre conheceu a vida em tons cinzas e melancólicos, e ambas, cada uma a sua maneira, precisaram ser crianças fortes e de certa forma deixaram suas infâncias cedo demais para trás, a fim de sobreviverem em meio a um mundo muito cruel.
Além do fato de ser um livro envolvendo crianças na segunda guerra mundial, que não passaram por privações físicas, mas sim emocionais, o que é uma vertente relativamente nova, pois na maioria das vezes encontramos crianças em campos de concentração ou em perigo físico, em A garota alemã também encontramos outra peculiaridade, que se dá pelo cenário cubano exposto aqui, no qual Hannah passa a viver após a fuga da Alemanha Nazista, e são poucos os livros que trazem uma perspectiva da guerra nesse país, e todos esses cenários são extremamente bem descritos.  Esse livro também nos traz uma belíssima aula de história, falando a respeito do ataque às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, o que achei que poderia ter sido, em alguns momentos mais explorado, e também fala sobre Cuba e as revoluções socialistas vividas lá, o que modificou a dinâmica das pessoas que viviam nesse país.

A garota alemã também traz descrições de emoções muito cruas, sinceras e puras, pois em boa parte a narrativa vem da boca de crianças, que costumam ser olhos ingênuos e nos transmitem o mundo exatamente como o veem. Ainda, aqui há uma relação familiar bastante conturbada,  o que também é um fruto da guerra, que deixa suas raízes por muitos anos e sugou  a identidade de famílias e comunidades inteiras, e destruiu relações, à medida que deixou as pessoas marcadas emocionalmente, e mais irrequietas e frias, a fim de bloquear tanta dor que o evento lhes infringiu.
Não é possível dizer que essa é uma história fácil de ser lida ou que tenha um final plenamente feliz, não, A garota alemã é um enredo, que embora tenha uma escrita muito ágil e fácil de ler, o que é algo pelo qual o autor merece aplausos, é também uma obra de difícil digestão, que por vezes nos deixa com um imenso nó na garganta, conforme Hannah nos descreve a travessia no navio e a relativa opulência encontrada, conforme todos participavam de bailes e se fingiam de pessoas felizes, até derradeiras despedidas, que ela não sabia ser as últimas, e, em alguns momentos admito que vieram lágrimas aos meus olhos por conhecer essa história dura e sensível, mas, ainda assim, acredito que tivemos um final satisfatório, melancólico e que causou uma sensação de paz para os personagens torturados que encontramos. Vale dizer também que essa não é uma história de amor em sua forma comum, apesar de haver romances aqui e ali, e sim é uma história de laços mais profundos, de perdas mais agudas, de partidas, chegadas e destino.

Ainda me sinto maravilhada com esse livro, mas, como fica óbvio, isso se dá pelo meu apreço por obras de guerra, o que pode não ser tão positivo para os leitores que não são adeptos desse tipo de enredo. Também, para aqueles que procuram finais felizes, a garota alemã não se mostra uma escolha tão acertada.

Hannah E Anna são as personagens protagonistas, e como tal, elas nos cativam e desenvolvi um carinho especial por ambas, ainda mais por Hannah. Mas, admito que gostei de Hannah mais em sua infância por ela ter se mostrado mais aberta, uma vez que a medida que as decepções surgiram em sua vida, ela se tornou uma senhora mais fechada e fria. Outro personagem que me cativou profundamente foi Leo, o amigo de Hannah, que foi um garotinho tão sábio e tomou uma decisão tão marcante quando ainda era muito novo e apenas uma criança.

A garota alemã é dividido em capítulos que se alternam entre a visão de Hannah, e a visão de Anna, em 1939 e os anos seguintes, e 2014, respectivamente, e ambos são narrados em primeira pessoa. Além disso, a edição brasileira foi publicada pela editora Jangada, e e li em versão ebook, que foi muito bem produzido e sem erros.

Recomendo a garota alemã para os leitores que apreciam histórias dramáticas, sensíveis e belas. Esse é um enredo daqueles que tem o poder de marcar e permanecer na mente, muito tempo após o fim da nossa leitura e merece um destaque por ser uma das melhores histórias de guerra que já tive a oportunidade de ler.








Tamara Padilha
Leitora compulsiva com foco em quase todos os gêneros
(exceto os romances de época e ficção científica).
Apaixonada por escrita, e em breve bacharel em direito.
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